MADRE ALOÍSIA: Caminhando encontrou com o Amor. (Ir.Marilene Gritens)
 
É na realidade humana que Deus concretiza seu projeto de amor, pois criou homem e mulher e viu que “era muito bom” (Gn 1,31). Por sua bondade permite que de forma gradativa suas criaturas evoluam na descoberta de sua humanidade e, desta forma se aproximem do Criador. Assim, procurando experienciar esta certeza trataremos sinteticamente da vida e obra de Madre Aloísia.
Stanislawa Cach (Madre Aloísia) nasceu na Polônia em 1878, filha primogênita de Stanislaw Cach e Mariana Niebylecka. Infância marcada pelo convívio familiar e a chegada de mais cinco irmãos. Em decorrência de doenças como a peste negra, atingir a idade adulta era privilégio de poucos, Stanislawa viu ser ceifada a vida de três irmãos e de sua mãe. Diante disso assumiu a casa, até seu pai casar novamente e dar continuidade à família com mais sete filhos.
A família Cach prosseguia sua jornada com trabalho e dedicação, vencia constantes dificuldades e desfrutava da esperança de dias melhores. No entanto, abrindo-se as cortinas de um passado ainda recente, temos a guerra que se aproximava com crueldade e voracidade sob a Polônia. Nesta guerra Stanislawa perde seu pai envenenado por soldados. Seu pai na tentativa de salvar seus filhos que haviam soltado os cavalos dos soldados, ingeriu involuntariamente uma substância na falsa aparência de bebida de festa, vindo a falecer após terríveis dores internas. Desde então a família sofreu as transformações e desolações impostas pela guerra.
Possivelmente num misto de sonhos e projetos, de busca por concretizar o que tinha importância pessoal e o que essencialmente era importante, Stanislawa ingressa no Mosteiro das Irmãs Bernardinas da Polônia. Foi admitida em 1904 no noviciado, no Convento Sagrado Coração de Jesus, em Zakliczyn. No dia de sua consagração a Deus recebeu o nome de Irmã Aloísia Casemira da Sagrada Face.
Com espírito forte e decisivo Aloísia compreendeu o sentido da liberdade, e de acordo com Rulla, “só porque é livre, uma pessoa pode ser convidada, chamada por Deus a empenhar-se nessa vocação, (…) ela pode fazer uma escolha responsável para seguir tal chamado” (1987, p.147).
Esta liberdade incentivou-a a alçar voo, “águia pequena que nasceu para as alturas com ânsia de voar” (Pe. Zezinho). Conforme crônicas do mosteiro, no ano de 1905: “Irmã Aloísia, acostumada com a vida livre e ativa, não se sentia bem no Convento de clausura estrita. Madre Edviges aconselhou-a ir para Reading, Estados Unidos (…)” (Pellense, 2004, p.46).
A vida a desafiava, e reservou inúmeras surpresas para Aloísia, se assumir este novo projeto significava algo importante para ela, foi descobrindo pouco a pouco qual à vontade de Deus. Sua inquietude e busca a fez percorrer caminhos, abri outros, buscando na Fonte primeira o sentido de sua vida. Foi treinada na escola Divina, para no tempo certo responder a apelos maiores.
Nos Estados Unidos assumiu a formação do postulantado e noviciado, enfrentou a partir daí um dos mais belos duelos entre vontade própria e vontade de Deus. Transcrevo alguns trechos de uma de suas orações que revela a beleza de uma vida em constante busca da vontade do Pai:
“ Ó Deus Trindade Santíssima, desejo te amar e despertar outros para te amarem, quero ainda trabalhar para a glória da Santa Igreja (…). É meu ardente desejo realizar plenamente a tua vontade (…). Ofereço-te com júbilo suplicando que me olhes com alegria e apenas me voltes para a face do teu Jesus e seu coração inflamado de amor (…). Agradeço-te ó Deus pelas graças com as quais me cumulaste e especialmente por me conduzires por caminhos espinhentos (…). Desejo que toda minha vida seja um ato de perfeito amor; entrego-me como oferenda em satisfação do teu benevolente amor; aniquila-me constantemente, derrama no meu coração, para que eu me torne, ó Deus, mártir do teu santo amor (…).
Maria Stanislawa, Aloísia Kasemira do Coração de Jesus – 1907
(Pellense, 2004, p.50)
Com espírito generoso, aberto e fiel Madre Aloísia aceitou ser purificada com o fogo que faz arder, porém estimula e motiva a continuar o caminho. Certamente sofreu as angústias e incertezas por não saber ainda qual a vontade do Pai. Categorias como emoção e razão sondavam sua vida, como um movimento construtivo de sua personalidade. Um misto de necessidades e valores contribuía para que seu processo formativo se aproximasse a cada dia do Transcendente, com a capacidade de tomar decisões, de sair de si para ir ao encontro d´Aquele que a chamou.
Por estar à frente de seu tempo, por desejar o protagonismo de sua história, por ser forte e perceber as contradições sociais de seu tempo, prosseguiu com seu espírito inquieto, voltou a Polónia, e colaborou na reconstrução do mosteiro após a guerra que tudo dizimou.
Com o conhecimento que a experiência lhe concedeu, com o dom da compreensão que o discernimento proporcionou, com a capacidade crítica em ver o mundo e a habilidade de tomar decisões, Aloísia, ouvindo os apelos missionários desejou partir para o Brasil, porque ama com todo coração, com toda a mente e com todas as forças Aquele que a amou primeiro.
De acordo com Cencini que reflete: “ a pessoa humana é um ser consciente e livre, capaz de ter domínio dos elementos de sua personalidade, e chamado a crescer progressivamente na mesma consciência – domínio de si como na responsabilidade – liberdade” (1988, p.3). Bem como, é um ser dividido, em busca constante de atingir a perfeição. Acredito que Aloísia em sua plenitude desejou o essencial, algo que está além de uma visão aparente, algo que só se percebe quando se vê com os olhos do coração. Aloísia que não se adequou a seu tempo, não esperou que outros decidissem por ela, mas aceitou cumprir com a vontade do Pai, e por inúmeras vezes mencionou: “uma vez estando neste caminho, voltar não posso enquanto não se cumprir a vontade de Deus” (Pellense, 2004, p.128).
Com esta bagagem, com sonhos de contribuir com um povo que solicitava colaboração, partiu com outras quatro Irmãs da Polônia rumo ao Brasil no ano de 1929. Durante a viagem, quanta angústia e expectativa, enfrentaram muitas tempestades, talvez preanunciando as tempestades que estavam por vir. Fizeram uma promessa de nunca mais voltar à Pátria mãe se chegassem vivas na Missão. E assim aconteceu. Após longos dias de viagem chegaram ao Brasil, e acolhidas com festa iniciaram a caminhada missionária no Rio Grande do Sul, numa colónia de poloneses.
Foram percebendo a realidade, se envolvendo com a comunidade e iniciaram os trabalhos pois logo avaliou: “nós religiosas não podemos olhar com indiferença, para tanta gente que morre sem nenhum atendimento. Prontas estamos para trabalhar, pois foi para isso que aqui viemos” (Pellense, 2004, p.104).
Por ser mulher de personalidade que conciliou ternura e vigor, carisma e instituição, organizou a vida das Irmãs de forma que podiam servir mais e melhor a população da colônia. Em pouco tempo de missão assumiram com afinco diversas funções como relata: “temos velhinhos aos nossos cuidados, trabalhamos nas escolas, temos um pequeno internato, sala de trabalhos e confecção de alfaias para a Igreja. Mas a população aqui sofre, pessoas morrem por falta de assistência médica e hospitalar. O povo suplica e nós temos que dar uma resposta a esta situação angustiante” (Pellense, 2004, p.105).
Eis uma amostra da maneira de viver de Madre Aloísia. Era como se todo trabalho realizado não satisfizesse os anseios por servir, então procurava meios de atender na totalidade todos os apelos advindos da população. Conforme Boff in Cencini:
No coração de cada um habitam santos e demônios; a passionalidade vulcânica deita raízes em todo tecido humano, instintos de vida e de morte dilaceram o interior de todas as pessoas, impulsos de ascensão, de comunhão com o diferente e de doação convivem com as tensões do egoísmo, da recusa e da mesquinhez (…). Os cumes da santidade são um contraponto aos abismos da fragilidade humana. As virtudes são maiores porque as tentações vencidas eram grandes… Por trás do santo se esconde um homem que conheceu os infernos dos abismos humanos e a vertigem do pecado, do desespero e da negação de Deus (…) (1988, p.5).
Em outro momento de sua história, sente a fragilidade humana ao deparar-se com questões que não compreendia, com questões que se escondiam atrás de falsa aparência de cumplicidade e apoio. Os conflitos foram se aprofundando, mas não eram expressos, era como se o inimigo não tivesse face, porém atingia negativamente a fraternidade e impedia o progresso das atividades já iniciadas. Não há luta perdida quando se tem consciência do porque se está lutando. Persistente na luta, mulher que o tempo muito ensinou, deixou de tomar posições paliativas e procurou a cura para tanto mal estar. Foi percebendo que suas correspondências ao Arcebispado e autoridades civis eram modificadas, pois dependia do Padre que a acolhera para escrever em português; que as suas co-irmãs não a escutavam; que o povo começou a desconfiar de suas posições e não colaborar mais nas áreas sociais, sem contar com o clima de desconfiança e intrigas instalado em seu meio.
Vieram outras Irmãs da Polônia, ingressaram jovens dispostas a serem Irmãs, e com isso a pobreza se acentuou severamente. As Irmãs não tinham renda, trabalhavam para o Páraco, desde sua residência à manutenção de suas obras, mas nada recebiam. Foram impedidas de esmolar em Porto Alegre, então pediram a ajuda do Padre Prelado, desta forma: “com humildade peço ao Revdo.Padre Prelado seu auxílio, quando em nossas necessidades devemos nos dirigir às autoridades, pois ainda não conhecemos a língua e sozinhas não somos capazes. Por isso vamos recorrer a Sua Excia. com toda simplicidade como uma criança recorre a sua mãe” (Pellense, 2004, p.108).
Mesmo contando com o apoio do Padre Prelado, viu seus projetos ruírem diante das ações do Pároco, que se colocava contrário a tudo o que Madre Aloísia tentava implementar. Assim está no relatório de 1929: “Começou a dificultar tudo. Impediu que o povo providenciasse uma casa para as Irmãs, desencaminhou o pedido do terreno junto ao governo e falou à comunidade do risco que corriam ajudando a construir o Hospital (…)” (Pellense, 2004, p.99).
Aloísia não tinha medo da liberdade, de arriscar algo novo, de administrar a própria vida, não podia permitir que a solidão a paralisasse; então procurou o Padre e tentou falar-lhe de todas as questões que estavam acontecendo. Ele tudo negou. No entanto há indicações que a perseguição começou quando as Irmãs quiseram iniciar um trabalho próprio, para o qual vieram, com aprovação do Santo Padre e por ordem do Cardeal Kakowski que as enviou.
Interessante que a presença do Padre certamente favoreceu o crescimento pessoal de Madre Aloísia, pois uma tempestade quando surge devasta tudo o que encontra pela frente. Viviam em situação de extrema pobreza como diz: “a pobreza vem a nós pelas portas e janelas (…)” (Pellense, 2004, p.115).
São os momentos de desolação que se tem as oportunidades de conversar com Deus face a face como um amigo conversa com outro amigo. Madre Aloísia não compreendia os desígnios de Deus, sabia e refletia que seus planos eram bons e por isso repetiu diversas vezes: “uma vez estando neste caminho, voltar atrás não posso enquanto não se cumprir a vontade de Deus”. Foram diversas experiencias que moldaram a personalidade de Madre Aloísia. A categoria da contradição tão presente na vida humana germina silenciosa e imperceptivelmente. Batalhas entre consistência e inconsistência foram vitais para Madre Aloísia. Ter consciência disso a fez percorrer caminhos de desesperança como este: “a angústia me envolve por precisarmos sofrer e olhar para tudo isso, sem nada poder fazer. Antes tivesse o navio afundado conosco, antes de ter aportado no Rio Grande do Sul” (Pellense, 2004, p.127). E outros caminhos de esperança: “ mesmo assim estou pronta a ser vítima do sacrifício, nem que se trate de uma só alma. Nesta terra estrangeira ofereço a vida no caminho da cruz” (Pellense, 2004, p.127).
Pode ser Deus, na sua infinita bondade dando oportunidade de Madre Aloísia experimentar o despojamento, e até a morte de tudo o que possa ser sonho seu ou projeto de auto satisfação. Então, “se o grão de trigo não morrer, não produz frutos” (Jo. 12,24).
Até aqui percorremos timidamente os caminhos de sua história, após três anos no RS, com sua fraternidade dividida, partiram sem rumo, sem esperança, sem lugar para descansar a cabeça. Pensou em retornar à Pátria, no entanto adoeceu, teve sua bagagem extraviada, completamente dependente da misericórdia divina. Desde então, receberam apoio, foram reanimadas, como se o Espírito soprasse um vento suave ameno, reiniciaram a vida em Santa Catarina. E de acordo com Murray: “o sol começa a aparecer no horizonte distante, com brilho fraco, como se fosse uma metáfora de sua vida”.
Como Franciscana vivenciou a pobreza, minoridade, humildade e constante abandono em Deus forjando uma personalidade capaz de repetir em gesto concreto: “prontas estamos para trabalhar, pois foi para isso que viemos” (Pellense, 2004, p.123).
Sempre prontas para trabalhar, para começar de novo; respirar novo ar, retomar projetos, agora purificados. Experimentar a boa convivência e a alegria, eis a síntese de sua vida, resultado de morte e ressurreição constantes.
Com perseverança e coragem terminou seus dias em terra estrangeira, sempre a procura da doçura e da leveza de Deus. Preservou a firmeza e determinação, elementos naturais do povo polonês.
Ainda jovem, eternamente jovem, após ter organizado vida e trabalho da pequena e pobre Congregação, compareceu diante da ternura do Pai, para conversar face a face, como alguém que procurou sempre cumprir com a vontade de Deus. Lançou a semente franciscana, germinada na dor, cuja semente morreu e continua produzindo frutos. Possuidora de um coração totalmente pobre e disponível à Trindade e aos irmãos como Maria de Nazaré. Faleceu como uma lâmpada que aos poucos vai perdendo a capacidade de iluminar por que não lhe resta mais óleo, porém há sempre a certeza de que a função da lâmpada é iluminar. Assim, a vida de nossa Mãe Aloísia, mesmo não estando em nosso meio, seu espírito continua vivo e vibrante em suas filhas, que como ela desejam cumprir com a vontade do Pai e percorrer o caminho que leva ao Amor.