RETRATOS NOVOS (Ir.Marilene Gritens)
 
Se passaram treze anos desde que as primeiras Irmãs chegaram em Angola, desde então ocorreram muitas mudanças e um novo rosto se anuncia. O pavor da guerra está cada dia mais distante, porém o encontro real do povo angolano com ele mesmo está também muito distante.
As influências estrangeiras do período da guerra mudaram de foco e de estratégias, antes exploravam as riquezas, petróleo, diamantes, mercúrio e subsidiavam a guerra, agora continuam a explorar e subsidiam outra guerra que veremos a seguir.
Nós percebemos que se quisermos oferecer um trabalho com qualidade e “produzir práticas sociais que tenham a dimensão do coletivo, temos que dialogar com saberes múltiplos. Buscar significados, mais do que buscar coleta de informações, buscar portanto sujeitos e suas histórias” (Martinelli, 1999,21).
A primeira vista, percebemos uma população que resiste aos impactos sociais, impactos que revelam a face cruel de um sistema desigual. De acordo com Martins apud Yasbek (2001,3), “a pobreza é um fenômeno que possui diversas dimensões, se evidencia na representação das desigualdades e no imenso abismo que divide as classes sociais”.
É no cotidiano que a pobreza é vivenciada e sentida pela população que não serve aos moldes do capitalismo, por isso chamamos excluída, que sobrevive ao desemprego e/ou empregos informais, a falta de saúde, de educação, de habitação, de informação, de alimentação, de água, de condições e oportunidades que lhes permita atingirem a emancipação individual e coletiva.
Vamos refletir juntos, olhar a vida de perto e colaborar com uma transformação possível de uma realidade social que impede seres humanos de viver dignamente. Estamos tratando de Angola, país de uma cultura rica de significados e beleza, porém cruelmente tratada em princípio pelo colonialismo que foi rompido há mais ou menos trinta anos, em seguida por uma guerra civil que terminou há sete anos. Podemos nos perguntar: o que restou? O que há no imaginário desde povo que desde a escravidão até os dias atuais não pôde repousar a cabeça? O que fazer em primeiro lugar diante de uma realidade tão complexa?
Aparentemente cessaram as armas, mas o coração ainda não sente a paz. É praticamente impossível descrever em palavras o que percebemos e sentimos. Os serviços públicos não são satisfatórios, nem saúde, nem educação, nem assistência social. O custo de vida é altíssimo e a maioria do povo sobrevive de trabalhos informais, pois não há empresas suficientes, nem investimentos que garantam trabalho de qualidade para a população. Alguns pensadores angolanos refletem que seu povo está perdendo valores que antes os identificavam, e tornavam Angola um país solidário e familiar.
O sistema político é o mesmo de há trinta anos atrás, não houve eleições presidenciais, fala-se em democracia, porém isto é sonho... As portas do país estão abertas aos chamados investidores, as riquezas do país continuam a sair pela mesma porta. A porta da educação, da saúde, da assistência, do emprego continua cerrada aos jovens angolanos. Qualquer propaganda contrária pode ser mera cópia de algum programa de televisão estrangeira.
Volto ao tema e reflito: todo retrato vem maquiado, todo sorriso traz o choro contido, a lágrima proibida, a esperança quase esquecida. Nós trabalhamos na saúde, na educação, na pastoral, e a cada dia que nasce percebemos que nestes anos que cessaram as armas pesadas, ficaram as armas leves, que destróem pouco a pouco, de maneira escondida e camuflada, penso que isto é terrível e que a reflexão de alguns angolanos quanto a perca de valores fundamentais é bem pertinente.
Passarei a citar alguns reflexos da realidade vivenciada no cotidiano e que os meios de comunicação não noticiam e que as máquinas fotográficas nem sempre podem mostrar.
- aumento de acusações de crianças e “velhos” como feiticeiros, isto acarreta expulsão de casa ou morte;
- crianças, adolescentes e jovens transformam a rua em novo lar;
- números elevados de abortos efetuados em lugares denominados de Posto médico;
- crianças fora do sistema de ensino;
- crianças responsáveis por outras crianças;
- crianças que passam o dia inteiro na rua, correndo atrás de um pneu, de um passarinho, de um gafanhoto, ou ainda correndo de um outra criança que vai lhe bater...;
- lotes de medicamento vencido que são comercializados pelas ruas e praças;
- mortes de pessoas que não foram atendidas ou foram mal atendidas;
- inúmeros casos de morte por “dor de dente”, diarréia, malária, raiva, muitas mortes sem diagnóstico...
- confronto de policiais e as mães “zungueiras”, não permitindo a venda de produtos que no final do dia corresponde ao jantar da família;
- por um lado construções luxuosas, por outro expulsões de pobres de suas pobres casas;
- deslocações de bairros inteiros para a periferia, onde não há condições mínimas de sobrevivência;
- aumento crescente e assustador dos chamados “delinquentes”, grupos...
- um país que tem moeda, porém sua economia gira em torno do dólar...
- insignificante o número de pessoas que tem documento de posse de propriedade, a não ser alguns generais ou políticos...
- incomum desinteresse pelo estudo ou aprendizado;
- as ruas que se misturam com pessoas e lixos espalhados por todos os espaços, todos os buracos, melhor crateras, que no período das chuvas se misturam com esgoto da terra e chuva do céu;
- falta luz, falta água, e quando têm o povo esquece que não teve e que logo não terá...
Histórias de vidas, histórias de um povo que apesar da vida pesar, ainda sorri, ainda se alegra e faz festa, ainda acredita no poder da solidariedade, que parece ofuscado, mas não morto. Se atrás de cada sorriso há um choro contido, há também o riso atrás do choro sentido. “ Se hoje enterro minha filha de nove anos que morreu de doença, no mesmo instante dou à luz a minha outra filha”. Não pôde chorar a morte, porque dava ao mundo outra filha.
Sonhamos com novos retratos que possam mostrar mais muito mais do que imagens captados num instante de vida. Sonhamos com imagens reais.
“O chão em que pisamos é sagrado”.